terça-feira, agosto 22, 2017

Parque infantil 5x10m

Quiseram ir lá para dentro. A mãe deixou e eu estou aqui fora ver a infância, a magote, a desenvolver a sua criatividade num espaço, de 5x10m com uns miniedificios pré-fabricados, emulado ao de qualquer parque infantil montado para entreter crianças num centro comercial. 
Parecemos peixes num aquário. Eu sou daqueles que morre depressa, pois não sou nada territorial.
Estou desejando que me digam: «quero ir para casa».

Ainda que tudo se mova

«Deja de moverte y quédate quieto,
y la tranquilidad te moverá.»
(Poema Zen)

Mais fugas no sistema de rega. Incompetência da empresa que mo fez. Irresponsabilidade dos fornecedores. Quem é que paga?
As árvores, os aloé, a nossa carteira e o meu espírito, avesso de dependências externas e também sem água para arrefecer algumas raízes de violência.

sábado, agosto 19, 2017

Valeu a pena?

Acabo de ler um ensaio, muito resumidamente e pecando por alguma interpretação errónea da minha parte, sobre a actividade do escritor em Portugal. Tiro o chapéu à autora, Inês Fonseca Santos, e à Fundação Francisco Manuel dos Santos que promove uma verdadeira colecção de serviço público.
«Vale a pena? Conversa com escritores» faz a radiografia, através da conversa com onze escritores portugueses, como se vive a e da literatura neste país. Fá-lo com conhecimento de causa e duma maneira exemplar. Soube rodear-se de opiniões consistentes de criadores interessantes como António Cabrita, Mega Ferreira, Afonso Cruz ou Patrícia Portela, e outros que guardo a essência das palavras mas olvido o nome.
Inês, guardiã da poesia de Manuel António Pina, põe o dedo numa ferida estructural, que alguns remetem para características de pouco refinamento cultural português quando comparadas com outras realidades, a educação.
Quanto à minha humilde interpretação, é nesta base, influenciada pelo mundo global, que determina tudo: escritor, mercado literário nacional, editor, revisor, distribuidor e leitor. Pelo meio há os auxiliares desta cadeia, crítica e redes sociais. O caso da crítica não foi explorado como estava à espera, tal como o caso das revistas literárias que, na história da literatura portuguesa, geraram cânones («Orpheu», «Seara Nova», «Presença»...). A revista continua a ser um veículo de difusão, discreto é verdade, mas de grande qualidade quer em prosa, quer em poesia.
Outra coisa que a minha sensibilidade me chamou à atenção, foi o centralismo das duas grandes urbes, Lisboa e Porto, nesta reflexão. Isto impede que a literatura portuguesa imponha géneros regionais, impossível mesmo subliteraturas alentejana, transmontana, estremenha. Até que ponto as autarquias e a produção cultural veículada pelo poder local deveria ser estudado e inventariado? Espanha tem essa realidade regional sem a qual se pode falar de literatura espanhola. Falar de literatura no país vizinho é ter em conta uma amálgama de regiões autónomas, algumos com língua própria. O centralismo em Espanha existe a nível editorial, oscilando entre Madrid e Barcelona, mas a dimensão e distribuição pode levar-nos aos mercados iberoamericanos. O caso português não é assim. 
Ficando nomes importantíssimos, e que ajudariam a entender o mercado e a escrita actual, para trás como Virgílio Ferreira, Miguel Torga (o seu caso de primeiro candidato plausível a Nobel e nobre editor, junto com a esposa, da própria obra), Mário Viegas a declamar, Carlos Pinto Coelho a acontecer diariamente um magazine cultural, o Jornal de Letras quinzenal, os cantautores de talento literário reconhecido, o Sérgio Godinho, por exemplo ou o egocentrismo (com possibilidade de Nobel) de Lobo Antunes que tem leitores ainda mais reduzidos que em poesia no que respeita aos seus romances mas que chega à leitura massiva com as suas crónicas.
O passado condiciona demasiado este «Valer a pena». O tamanho do país também, pequeno e com grandes valores literários, tal como livro que alberga este ensaio de excelente abordagem e registo mixto, ensaístico e jornalistico, ao qual lhe faltariam umas páginas para ser completo.
Mas há que ser realista. O que é preferível, esta reflexão na estante da biblioteca da universidade ou em milhares de topos em supermercados e livrarias do país? 
De obrigatória leitura para quem quer escrever e ler boa literatura portuguesa. O mesmo se aplica a quem quer viver dela, escrevendo, editando e ensinando.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Comparativa de performances pueris

E é comparar. Preços, materiais, carros, casas, países, economias, corpos, tamanhos, performances... e filhos. Não falo da quantidade, nem se é entre o mais velho, o do meio ou o caçula. Falo de filhos.
«Vejam só, tem seis anos mas já veste de dezoito. Já fala três línguas, sabe judo, toca piano e guitarra, programa aplicações e acabou de receber propostas de várias universidades para ir estudar. Mas ainda não nos decidimos pois teve um convite para ir para o governo e, como pais, não sabemos se o devemos aconselhar a emigrar, com o potencial que tem...».
É verdade. Tem tanto potencial que só é pena eu não ter inveja porque sou um pai preguiçoso demais, até para isso. Os meus têm percentis normalíssimos (mais a dar para o pequeno). A roupa, se possível herdada, é do tamanho que mais jeito dá ao corpo e à carteira dos pais. Falam e abusam do portunhol. São um bocado patosos e riem-se dos próprios puns e de uma aplicação que os reproduz. Têm um cavaquinho desafinado que usam para, se me descuido, se agredirem e só os aceitam mesmo no infantário e na escola primária. Do governo, só conhecem o de casa e o orçamento que possibilita, ou não, a aquisição de um novo brinquedo.
Enfim, não lhes vejo potencial para além de encher fraldas, o mais novo, e a esperança de descobrir uma forma de produzir energia alternativa com o chulé das sapatilhas do mais velho.
Deveria de estar preocupado. Deveríamos, porque isto também é culpa da minha mulher. Já tentei melhorar, tentámos, melhorá-los, mas parece-me que isto é uma questão de cepa torta...
Epá, espera lá! És parvo ou quê?! Com o marketing adequado, até de uma vulgar cepa se pode vender um vinho extraordinário!!! É tudo uma questão de rótulo!!!

«Contou-me um alentejano» - J. Rentes de Carvalho

"Contou-me um alentejano: «Tive um avô que ia ouvir a água a correr como quem vai ouvir a banda filarmónica a tocar no coreto», e fico a recordar que em criança, quando o meu avô ia tratar da horta e me levava consigo - na minha fantasia uma manhã inteira de jornada, as burras transmudadas em corcéis - ficava eu junto do açude, entretido a seguir os girinos, surpreso de não compreender se o som da corrente mudava por eu mudar de sítio, ou se havia ali mistério, talvez elfos emigrados da fria Noruega para o calor transmontano, e que regalados, escondidos entre seixos, sopraravam nas flautas estranhas melodias.".

J. Rentes de Carvalho, in «Trás-os-Montes, o Nordeste», pp. 11 e 12.

quinta-feira, agosto 17, 2017

O vizinho do lado

Há quatro anos que nos conhecemos, nos cumprimentamos, e partilhamos o local de veraneio sem sabermos o nome um do outro.
Este ano temos falado mais desde o primeiro dia. Pescador submarino diário nesta Foz, o simpático vizinho do lado tem mostrado cavalos marinhos, ostras, ameijoas, santolas e outro marisco que o meu vocabulário de sequeiro desconhece.
Hoje obsequiou-nos mais umas ostras e uma pequena santola. Agradeci a atenção e a simpatia, escondendo o pânico de ser incapaz de coser vivo o animal e depois comê-lo.
Lá está ele dentro do alguidar e, amanhã cedo, com medo de ser descoberta a minha ingratidão marisqueira, vou soltá-lo ao mar.

Reiki

Uma vez estive a falar com uma «reikiana» - esse é o nome que têm os seguidores dos fluxos de energia que emanamos - e, para demonstrar a um público de um programa de televisão de então no que consistia esta terapia, usou-me como cobaia. O riso é uma forte energia em mim, contudo o respeito pela energia da convicção do outro conteve-o nos cantos discretos da boca que iam sorrindo nervosismo e falta de fé.
Terminada a sessão/demonstração, disse-me ter encontrado uma fervilhante energia criativa num chakra, ou coisa parecida, situado lá para as bandas da minha testa. Agradeci-lhe sincero. Ainda hoje gostaria de acreditar em coisas que não acredito.

Uma simples medida de cafeína

«Yo he medido mi vida en cucharitas de café.»/«Eu medi a minha vida em colherzinhas de café» (T.S. Eliot)

terça-feira, agosto 15, 2017

«HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED» Chris McCandless

De volta a «Into the Wild» de Jon Krakauer, para sublinhar palavras de solidão, fascínio, idealismo, aceitação, eu, outro, de filho a pai, pai de filho, natureza, pureza, decalque, egoísmo, erros cheios de inocência. A morte dum filho que rumou a norte de si mesmo.

Ao meu redor, os meus filhos brincam, discutem por brinquedos, matam formigas. O mais velho paciente com os movimentos abebezados e egocêntricos do mais novo a articular aos berros o seu carácter reivindicativo e privilegiado por o ter como irmão.

Quero terminar para eles uma ideia em movimento há tempos. Sinto que o tenho de fazer sem mais ideia de legado que a realidade de por aqui estarmos ser irrepetível. Não sei como o farei sem lhes impor mais presença paternal minha que a necessária para poderem ser eles próprios. Termine como o terminar, a responsabilidade é minha.

«For children are innocent and love justice, while most of us are wicked and naturally prefer mercy.» - G. K. Chesterton

Fila G, Lugar 11, uma sala de cinema só para ele...