sábado, junho 24, 2017

Córdoba de encontros (e reencontros)

Pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, com as lições de cultismo que me levaram (insipidamente) a conhecer o barroco espanhol e o seu «siglo de oro». Já fiz os deveres e, num alfarrabista de sonho, levo uma breve antologia do mais célebre poeta e peculiar sacerdote cordobês. No entanto, à beira do Guadalquivir, num dos pilares de uma ponte vejo um graffiti, pouco elaborado de arte pictórica, que me fez pensar: «Sin poesía no hay ciudad».
Será a poesia o ordenamento territorial necessário à subsistência da cidade? Um motor de desenvolvimento económico, tipo indústria do espírito? O que seria das cidades sem os seus poetas? Como seria Córdoba sem Góngora? Continuei a andar e à senhora que vendia água junto à ponte romana voou-lhe a tampa da geleira onde guardava o fresco das bebidas dum final de tarde a escaldar quase aos 40°c. Exclamou baixinho, impotente a olhar para a tampa a navegar no rio da cidade: «tu puta madre».
Deixei de divagar sobre versos a alicerçarem urbes e tive pena de ver o sustento da vendedora de cerveja e água fresca ir, literalmente, água a baixo.
Acabei por refrescar-me junto à estátua de Averroes, sentado nuns degraus a partilharmos umas «granizadas» em família. O intelecto activo caracteriza a forma como vivo as cidades, os passos dados em caminhos desconhecedores das minhas rotinas, porém luto com convicção e, por vezes desilusão, de querer sentir a passividade da inteligência, aquela que, este médico e filósofo devoto de Aristóteles, me ensinou encontrar-se unida à alma humana, a única coisa que me parece possível conceber como divina e eterna...
Afinal, pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, mas quem reencontrei foi o meu velho mestre muçulmano.

Encinarejo, a horta de Córdoba

Por aqui dizem-me que estou na segunda zona mais fértil do mundo, depois das margens do Nilo. É uma boa forma de divulgar este «pueblo» de 2000 habitantes da bacia hidrográfica do Guadalquivir e o primeiro de «colonización» nos anos 50 com a reforma agrária franquista.
Andei a tocar a terra com as mãos, a comer pêras directamente da árvore, a ver como subsiste esta região tão quente como a minha à qual chamam «a horta de Córdoba».
Aqui entre aromáticas, aloé vera, flores, viveiros de oliveiras, verduras e frutas da temporada, dou por mim a falar húmus real, de minhoca, de fertilizante agrícola e não de literatura, do «Húmus» do Raúl Brandão que conheci graças ao Sr. Edmundo, o motorista bibliófilo da carrinha do Centro de Dia, numa das épocas mais férteis da minha existência.
A fertilidade dos nossos dias depende de tantas misturas, de dosagens pessoais, e da matéria orgânica da qualidade das vidas que os povoam. Gostava de ser como as margens deste rio, fértil de vidas orgulhosas de trabalhar aquele solo...
(Não tenho a modernidade de Brandão e já aceitei o Gabiru sem filosofia nenhuma.).

sexta-feira, junho 23, 2017

Fita-Cola

Se o mundo se arranjasse com fita-cola, o meu filho mais velho seria um grande estadista com remédio para tudo. É incrível a fita adesiva que esta alma gasta! Desde muito pequeno, sabe usar esta invenção de escritório e usa-a para tudo, papéis, livros, brinquedos, palitos, etc.
«Papá, ¿puedo usar el tesa film?». Não sou capaz de dizer muitas vezes não e lá vão rolos gastando-se à medida do seu crescimento. Haverá um dia em que descobrirá a ineficácia da fita-cola, que o que está partido partido fica, porém até chegar esse dia vai desenrascando-se com material de papelaria. Se o seu coração for de papelão a sua infância poderá remediar qualquer coisa. Tesoura na mão, um bocadinho de fita cola estes momentos na nossa memória antes de se converterem em fragmentos do futuro.

quinta-feira, junho 22, 2017

O vilão que lia García Lorca

Uma boa história pode ser tão má que fico a adorá-la. Um mau actor pode ser tão canastrão que me fica no coração. Porque é que a arte tem de ser só sublime? Não há arte pateta? Quanto mais estudo arte, mais dúvidas tenho em defini-la, catalogá-la, ainda menos hierarquizá-la.
Nos últimos dias, tenho feito a digestão do jantar tarde. Eu, que não sou de me deitar demasiado tarde, tenho ido para a cama depois da uma e com um ou dois filmes vistos. Para o critério cinéfilo só tenho visto série b, talvez mesmo z, ou, simplesmente, merda. Mas para um escatológico o dejecto é resultado da vida. Só caga quem está vivo e nestes últimos serões as interpretações foram o menos importante, as histórias agradavelmente previsíveis, mas a porradaria épica!
Ainda hoje estava a divagar sobre o tanto que aprendi graças a ter sido um fã do Bruce Lee, de como, para além de Wing Chun ou métodos de Jet Kune Do, fiquei curioso com filosofia oriental e com a sua própria filosofia. Lee era mais que um pontapé rápido, era um mestre de aforismos cuja figura ganhou a imortalidade porque a sua vida merece a pena ser recordada.
O Sylvester Stallone também está no rol. O Rocky é indissociável do «Italian Stalion» que começou pelo porno e se manteve erecto no meio duma indústria que já não necessita dos anabolizantes de outrora, mas que continua sem perceber que o Rambo é muito mais do que o soldado do regime Reagan.
O regime Trump terá um canastrão como o Reagan teve nos 80? É capaz, mas o género já não vinga. Talvez qualquer coisa rápida e com carros furiosos de vários milhões de dólares possa evadir as mentes dos novos cinéfilos de coca-cola e pipocas no centro comercial e em streaming.
Não sendo velha escola (totalmente), ainda vejo DVDs e vou gravando filmes na box. Streaming nunca me habituei e as internets caseiras também não ajudavam...
Tudo isto para dizer que vi uns quantos filmes maus com a felicidade de os ter visto numa tarde de Verão escaldante em que não tinha para onde ir, tal qual como quando era miúdo.
Mas a idade pesa. Já não quero ser tão bom à porrada como o Van Damme e tenho um olho apurado para o verossímil. Gosto de boas coreografias de luta mas com fundos de realidade e menos espectacularidade. O efeito «Matrix» já é estilo clássico e o MMA não é só grappling, o «pound to pound» devolveu a espectacularidade de combinações e rotativos dignas dum hipster de 70 anos chamado Chuck Norris.
No entanto, para voltar à essência do que me fez escrever esta entrada no diário, foi no filme «Undisputed III», com o Scott Adkins, em que a poesia não abandona os filmes fáceis e previsíveis com a personagem do colombiano dopado, protegido pelos vilões acima dos vilões (os vilões ao quadrado digamos), a ler a poesia de Federico García Lorca à sobra do chapéu de sol, enquanto os adversários trabalham (mas convertem-no num treino) num campo de trabalhos forçados.
Dois mundos estes. O da dureza da força da picareta e o da subtileza da poesia...

«Ninguém consegue ajudar todo o mundo, mas todo o mundo é capaz de ajudar alguém» -Anónimo, mas com muita generosidade

quarta-feira, junho 21, 2017

Ismael

O Ismael não é para mim a personagem principal do Moby Dick. Não anda embarcado no mar às ordens dum louco Capitão Ahab.
O Ismael é o professor do meu filho Santiago e, aos seis anos, é uma grande referência para ele. Eu fico muito feliz por ver o meu pequeno adorar a escola e ter em conta tudo o que o seu professor lhe ensina. Uma criança que quer aprender é um universo que se quer dar a conhecer e não o contrário, como vulgarmente pensamos.
Como pai fico-lhe grato pelo brio e profissionalismo que põe na sua profissão, só com isto já é suficiente e não lhe posso exigir a tremenda vocação que tem. Como profissional da educação revejo-me na sua atitude e tenho fé que todas as coisas boas que tentamos fazer sempre salpicam com uma espécie de água benta os que ao nosso redor por bem estão.
Amanhã termina o ano lectivo e o Santi não deve poder estar presente por o "rotavirus" chato cá de casa. Não vai poder despedir-se e desejar boas férias ao seu professor e está triste. Eu fico feliz pela sua tristeza. Vale a pena acreditar na educação, vale a pena lutar por estas crianças e, no meu caso, por tantos jovens.
Tal como o Ismael deveria sentir, assim o espero, demos o nosso melhor e demos o exemplo que há que dar, imperfeito, mas como deve de ser, consciente. Consciente que na escola somos um exemplo e temos de ser coerentes com o que predicamos. Hoje fecho a loja como docente para férias. Há alguma papelada antes de desconectar da escola. Foi duro para mim como profissional, no entanto, acompanhar o trabalho do Ismael com a turma do meu filho, ajudou-me a superá-lo.

domingo, junho 18, 2017

Bomberos extremeños a la espera de ser movilizados para ayudar a Portugal

Após acordar com a notícia do inferno em Pedrógão Grande, passámos a manhã a ouvir rádio e a tentar perceber o que aconteceu. A geografia portuguesa ardida não é novidade, é recorrente todos os Verões, mas este é o primeiro destas dimensões, com, de momento 62 mortos, vários feridos e todas as pessoas de bem afectadas.

Quem me conhece bem, sabe que tento evitar moralismos, que não domino soluções científicas de ordenamento do território nem de engenharia florestal, que não gosto de pirómanos de florestas nem de redes sociais, que a política somos todos e não apenas os outros nos quais não votamos, por isso o que quer que escreva ou opine nada vai melhorar esta tragédia ainda a deflagrar num dos distritos mais importantes no meu trajecto de vida, Leiria.

No entanto, após uma manhã a ouvir rádio portuguesa e um telejornal espanhol, espero que este dia não seja um mais para estatística anual, que se junte ao caso dos fenómenos naturais causados pelas alterações climáticas por todo o mundo. Lembram-se do furacão Kartina ou dos incêndios no Chile? Que sirva de exemplo de não ser normal ondas de calor a roçarem os 45º em pleno Junho e que se actue em consciência dos factos e não dos tweets dum Trump. 

O que virá depois da terra queimada? Podia ir pela resposta de teoria da conspiração e mencionar algum benefício para privado, mas não. Já não é isso que me preocupa. Depois da terra devastada pelo fogo, das brasas feitas cinzas, vem a violência da inundação duma água sem vegetação para ser absorvida. Quais serão as notícias no Outono? Mortos em Reguengos do Alviela? Espero que não.

A esperança vem também pela geografia, no meu caso particular, que tanto gosto de falar e escrever da “geografia dos afectos”, vem da Península (e de muitas outras partes do mundo felizmente), de Espanha, da minha Extremadura, para quem Portugal não é outro país, mas também o seu país, a sua herança lusitana com capital, para sempre, na Emérita Augusta. A minha Extremadura, pela mão do meu amigo Emilio Mateos Ortega, que escreve “Bomberos extremeños a la espera de ser movilizados para ajudar a Portugal”…

Terra Devastada (Incêndio de Pedrógão Grande)

"Tenho andado distante. Por preguiça, por necessidade de silêncio, por necessidade de mais realidade empírica que virtual. Porém o dia chegou com más notícias a passarem a fronteira. O distrito de Leiria (que também é cá de casa) arde descontrolado e a queimar vidas... O fogo do Pinhal Interior chegou ao nosso íntimo e deixou tudo devastado. Teimam algumas lágrimas, algum sal, herança, como diz o poeta, de Portugal..." in Facebook